segunda-feira, 16 de abril de 2012

É justa a fiscalização de motoristas que passem perto de ciclistas?

fonte: vá de bike

A notícia de que a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET) passará a multar motoristas que ameaçarem ciclistas causou indignação em muita gente. As justificativas para essas reclamações vão desde a tão falada “indústria das multas” até a generalista “ciclistas não respeitam as leis de trânsito”.

É difícil para mim compreender como alguém pode se colocar contrário a essa fiscalização e conseguir justificar a si mesmo esse posicionamento. É colocar-se contrário à proteção da vida. Ora, se o motorista não infringir ele mesmo as leis de trânsito, se não colocar em risco a vida de ninguém ao guiar seu carro, não haverá com o que se preocupar. Ou será que, em seu íntimo, esses motoristas defendem o suposto direito de fazer o que bem entendem nas ruas, esperando que os demais saiam de sua frente para não atrapalhar o seu caminho?

A indústria das multas

Eventualmente, algum motorista é multado por erro ou ma fé do agente de trânsito, ou por deficiência na sinalização. Ok, isso acontece. Mas você, que já foi multado algumas vezes dirigindo (como eu também já fui), coloque a mão na consciência e reflita: quantas dessas multas, dentre todas as já recebidas, foram realmente injustas?
A maior reclamação sempre parece ser quanto às multas por excesso de velocidade. “Poxa, mas eu só passei 5km/h do limite!” Mas meu querido, que parte da expressão “velocidade máxima” não ficou clara? Afinal, aquele limite tem um motivo, baseado nas condições daquele trecho, na visibilidade e na segurança dos pedestres e dos próprios motoristas.
“Mas o radar é escondido”. Óbvio que é. E é assim que deve ser. O que deve determinar a velocidade máxima da via é a sinalização, não a presença de detetores de velocidade. Ou você acha que as pessoas também deveriam poder cometer crimes sempre que a polícia não estiver olhando?

Mas não tem espaço para dar 1,5m de distância

Se você pensa em passar na mesma faixa em que o ciclista está, não tem espaço mesmo. E nesse questionamento está a própria resposta: você deve mudar de faixa.
A bicicleta é um veículo que possui uma limitação de velocidade óbvia, que deve ser compreendida. Para ultrapassá-la, você deve fazer como faria com qualquer outro veículo lento que estivesse à sua frente, como um ônibus ou um caminhão carregado: mude de faixa e faça uma ultrapassagem segura.
Não dá pra esperar atrás da bicicleta? Mude de faixa e ultrapasse. Não dá para ultrapassar, ou só tem uma faixa? Espere. A bicicleta está em movimento, não se permita estragar seu dia (ou o dia de alguém) só por causa de alguns poucos segundos de espera. Não é isso que vai lhe atrasar, mas sim o excesso de carros que você provavelmente vai encontrar mais adiante, ou pelo qual já passou ali atrás.

Ciclistas infratores

Claro que há ciclistas que não se preocupam muito com as leis de trânsito. E bastante, mais até do que eu gostaria de admitir. Abriremos essa discussão por aqui ainda essa semana – e você vai ter o direito de opinar. Mas o ponto, nesse momento, é: por mais que aquele ciclista possa estar agindo errado, nós motoristas temos o direito de puni-lo com uma ação agressiva, que pode resultar em uma hospitalização, uma paralisia, uma amputação, uma morte?

Imagine se, a cada vez que um motorista parasse sobre a faixa de pedestres, um caminhão em alta velocidade o prensasse contra a calçada na próxima quadra. E se esse caminhão passasse a fazer isso com qualquer carro, aleatoriamente, porque se irritou ao ver alguém estacionado numa vaga de deficiente?
Finas e fechadas não educam ninguém. Na melhor das hipóteses, escalam um conflito; na pior, mudam a vida de pessoas para sempre. Não só a de quem está na bicicleta, mas a de esposas, amores, filhos e pais preocupados, que esperam aquela pessoa chegar em casa. E que muitas vezes dependem de seu trabalho e de sua saúde. Derrubar um ciclista, seja propositalmente ou por descuido, pode mudar a vida dessas pessoas para sempre.
É preciso parar de pensar apenas do para-brisa pra cá. Existe gente lá fora. O trânsito é feito de pessoas, seja dentro dos carros, em motocicletas, atravessando a rua, naquele ônibus enorme ou em cima de uma frágil bicicleta. Alguém que também está tentando chegar em casa, no trabalho, na escola, na casa da namorada – ou simplesmente passeando, por que não?Pessoas como você e eu, com família, trabalho, amores, sonhos. Pessoas. Esse é o ponto.

De quantas multas precisamos?

Apesar de favorável à fiscalização, não gostaria que os motoristas precisassem ser multados em profusão. Não que eu acredite que a fiscalização deva ser branda (pelo contrário!), mas por ter a esperança de que compreendam que aquela pessoa em cima da bicicleta também tem o direito de estar ali, que uma ação impensada pode destruir tudo que ela vem construindo ao longo da vida. Em questão de segundos, tão rápido quanto uma ultrapassagem.
Só o que queremos como ciclistas é poder usar também as ruas, sem termos que nos preocupar se nossos amigos e familiares nos verão novamente amanhã. Só queremos chegar ao nosso destino sem sofrer nenhuma ameaça de morte pelo caminho.
Não queremos “roubar” o espaço de ninguém, não queremos afrontar quem está nos carros. Só queremos paz. Não é pedir muito.


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